Stranger Things – Salvar o Mundo Ou Salvar a Obra?
- Jay Laranjeira
- 3 de jan.
- 5 min de leitura
Explicando a possível decadência de uma das séries mais impactantes da última quase década.
Stranger Things estreou em 2016, marcando toda uma geração por quase uma década e, agora, depois de anos de espera, retornou com sua quinta e última temporada.
No começo, a série era um poço de nostalgia e inovação: única, marcante, especial. Fez parte do crescimento de muitas crianças, eu sendo uma delas. Estava longe de ser simples, mas com o lançamento do Volume 2 da 5ª temporada, vimos a decadência da série: uma grande decepção para muitos, ao se perder na narrativa e “acrescentar demais” no que antes era a dose certa do suficiente.
Vamos falar sobre uma história que começou com amigos jogando D&D em uma cidade chamada Hawkins e evoluiu para um apocalipse com dimensões paralelas que pode destruir o mundo; e como isso se tornou entediante.
Quando a Teia se Alarga Demais
Nesta temporada, a teia de Stranger Things expandiu, e a maior ameaça à narrativa são as inúmeras pontas soltas deixadas, praticamente impossíveis de serem explicadas em apenas duas horas de episódio final, que irá ao ar após o lançamento deste texto, no dia 31/12/2025 (voltarei aqui para analisar e criticar esse final).
No início, tudo se passava em Hawkins. Era mistério sobrenatural e, sinceramente? Muito mais interessante e bem escrito. Não consigo entender essa necessidade absurda de “salvar o mundo”. Os problemas locais se espalharam para a possível destruição global, e agora os personagens precisam correr contra o tempo se preparando para a guerra final.
Enquanto isso, o roteiro também corre contra o tempo para: encerrar o conflito com Vecna/Henry, trazer de volta o Mind Flayer, lidar com o trauma coletivo dos personagens, fechar arcos românticos, dar sentido às ações de personagens complexos (como Mike), justificar a introdução tardia de novos elementos (como se não já houvesse elementos suficientes para resolver).
O perigo é um final apressado, com soluções clichês de deus ex machina, furos de roteiro, cenas tão mal escritas e confusas que precisaram ser explicadas pelos próprios criadores em entrevistas.
Volume 1 vs. Volume 2: Duas Séries Diferentes?
!ALERTA DE SPOILER!
O motivo de eu ter gostado tanto do Volume 1 foi simples: tudo ainda estava em Hawkins, com a party trabalhando em união, como sempre foi. Os primeiros quatro episódios foram pura nostalgia, quase um retorno à segunda temporada.
De repente, o Volume 2 estreia e parece que não estou mais assistindo à mesma série, nem aos mesmos personagens. Essa foi uma das minhas maiores tristezas.
A perda de profundidade e complexidade nas relações gerou uma sensação constante de que havia alguma coisa errada. Em comparação com as primeiras temporadas, parece que arrancaram a essência dos personagens.
Exemplos: No reencontro de Onze e Max, elas sequer se abraçam. Will e Max têm uma aproximação repentina, como se fossem melhores amigos há anos.
O Volume 2 abandona Hawkins e aposta na destruição iminente do mundo inteiro; e isso, por si só, acaba com a essência da série. Eles têm cerca de duas horas (tirando um epílogo de 40 minutos) para consertar o que está quebrado e encaixar peças que não deveriam estar soltas.
Tópicos Complicados Que a Série Evita Enfrentar
Superlotação de personagens: Com um elenco enorme (introduzido de repente), alguém inevitavelmente ficará sem desenvolvimento ou terá um final genérico.
Vilão monocromático: Vecna/Henry, apesar de um passado interessante, corre o risco de se tornar apenas mais um vilão que quer “destruir o mundo”, e novamente, genérico.
Falta de coragem para matar personagens principais: A série é criticada há anos por isso. Um final sem perdas significativas parece desonesto e sem consequências.
Mistério vs. explicação excessiva: Parte da magia inicial era o mistério. Regras rígidas demais e explicações excessivas retiram o horror e a maravilha da obra.
Representatividade, Will e Uma Polêmica Mal Conduzida
!ALERTA DE SPOILER!
Qual é, afinal, a mensagem que os irmãos Duffer querem passar com sua obra? Ou será que buscam apenas agradar o público? Se for isso, spoiler: não agradou.
O episódio 7, com Will se assumindo gay, tornou-se o mais odiado da série no IMDb e derrubou as notas da temporada inteira. E isso diz muito.
Nada em Stranger Things é totalmente realista, todos concordamos nisso. A sexualidade de Will vinha sendo construída de forma discreta, permitindo até o benefício da dúvida. Então por que retratar um garoto de 16 anos, traumatizado, se assumindo de forma forçada para familiares, amigos, colegas e até desconhecidos?
A cena transmite pânico e ansiedade, não alívio ou conforto, sob a justificativa de “retratar a realidade”. Mas em plena década de 80 isso não seria a realidade,
e a série nunca se comprometeu com realismo absoluto. Por que não oferecer um final feliz ao personagem gay principal, assim como foi feito com a personagem lésbica secundária? É por isso que muitos membros da comunidade LGBTQIA+ se sentiram humilhados, não empoderados.
Falando por mim, como mulher lésbica, não quero ver minha dor cotidiana reproduzida na TV. Quero ver esperança. Quero ver finais felizes. Não acho justo que personagens gays precisem apenas “se aceitar” para seguir em frente, enquanto casais heteronormativos vivem romances completos até em uma série sci-fi de terror.
Essa polêmica deixou muitos fãs decepcionados, especialmente pela forma como o amor de Will por Mike foi minimizado, quase apagado, como se a série quisesse encerrar logo o assunto.
O Mesmo Caminho de Decadência?
Stranger Things se encontra na mesma encruzilhada de séries como Game of Thrones e Lost. A lição é clara: fãs perdoam perguntas sem resposta, mas não perdoam finais que desrespeitam o desenvolvimento dos personagens, como aconteceu com Daenerys Targaryen.
É bom lembrar que o coração da série sempre esteve em Hawkins, nos arcos de bicicleta, nas conversas no porão do Mike, e não apenas em feixes de luz psíquica.
Conclusão: O Que Realmente Está em Jogo
A ansiedade em torno do final não é sobre vitória ou derrota. A vitória dos heróis é praticamente certa. A verdadeira questão é como essa vitória acontece, a que custo, e se valerá a pena.
Para um final bem-sucedido, os diretores precisam priorizar o desfecho emocional dos personagens acima da escala apocalíptica. Will precisa de um propósito ativo, Onze precisa encontrar paz além de seus poderes, Hawkins precisa ser salva (ou sacrificada) de forma significativa.
E, se me permitem acrescentar: que Mike Wheeler tome atitudes e faça alguma coisa! que ele tenha algum momento de destaque.
Opinião Sem Anestesia
Volume 1: 8.5/10
Atende expectativas, resgata a nostalgia das primeiras temporadas e traz a esperança.
Volume 2: 3/10
Não atende expectativas, acrescenta elementos novos ao invés de fechar antigos, é repetitivo, lento, confuso, com falhas de caracterização, atuações sem emoção que são consequências de um roteiro genérico e mal escrito.
Expectativa para o Episódio Final: 4.2/10
Talvez essa nota seja generosa demais. A esperança existe, mas dependendo do caminho pelo qual a série corra, o medo é que já esteja escuro demais para enxergarmos a simplicidade que nos fez amar Hawkins e seus personagens no inicio.
— By Jay
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